Do laboratório para o mercado

Deeptechs potiguares transformam ciência em inovação de impacto social
24-02-2026 / ASCOM
Empreendedorismo Empresas

Da bancada de um laboratório podem surgir não apenas descobertas científicas, mas também novos negócios. É assim que nascem as deeptechsstartups baseadas em conhecimento científico profundo que utilizam pesquisa avançada para desenvolver soluções tecnológicas capazes de enfrentar desafios complexos da sociedade, como mudanças climáticas, doenças e gargalos históricos em sistemas públicos. Essas soluções são desenvolvidas a partir de áreas como biotecnologia, inteligência artificial, física, química e computação avançada.

No Brasil, esse ecossistema vem ganhando tração. O país já abriga 952 empresas de inovação profunda, segundo o relatório ‘Deep Tech Radar Brasil 2025’, organização focada no setor; em parceria com o CAS (Chemical Abstracts Service), ligado à Sociedade Americana de Química; e o Cubo Itaú.

Atento a esse movimento, o Parque Tecnológico Metrópole Digital (Metrópole Parque) abriga, em seus programas de incubação e pré-incubação, pelo menos sete empresas com perfil deeptech, conectando pesquisadores, empreendedores e o ecossistema de inovação. Para o diretor do Metrópole Parque, Rodrigo Romão, essas empresas representam uma nova fase da inovação global.

“Por terem um olhar especial para problemas da sociedade que podem ser sanados pelo poder do conhecimento científico aplicado, vislumbro um futuro salutar no qual a inovação, para além de atender melhor às necessidades do mercado consumidor, passa a exercer um papel disruptivo ao introduzir novos comportamentos que influenciarão a economia por meio da geração de novos mercados e clientes”, aponta Romão.

Ciência aplicada como estratégia de desenvolvimento

Um dos exemplos potiguares nessa área é a Neuromatestartup de base científica incubada no Parque, que desenvolveu uma plataforma tecnológica nacional e de baixo custo voltada ao neuromonitoramento neonatal em tempo real.

Idealizada pelo professor Richardson Leão, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a empresa surgiu a partir de discussões iniciadas no final de 2024 entre o corpo clínico da Maternidade Escola Januário Cicco (MEJC) e pesquisadores do Instituto do Cérebro da UFRN. O intervalo entre a pesquisa e a estruturação do negócio foi de aproximadamente seis meses.

“Nós já vínhamos desenvolvendo e testando tecnologias similares em laboratório há anos, sempre com base em pesquisa rigorosa e ciência aberta. Isso acelerou muito a transição para o formato de startup”, explica Richardson Leão.

Para o pesquisador, empresas de base científica são estratégicas para o país. “Elas são vitais para reduzir a dependência de tecnologias importadas. Quando desenvolvemos hardware e inteligência artificial em Natal, dentro da UFRN, garantimos que o país não seja apenas consumidor, mas também exportador de soluções de alto valor agregado”, destaca.

Segundo ele, além de fortalecer a economia, esse tipo de iniciativa contribui para a soberania tecnológica e para a adaptação das soluções à realidade nacional. “Startups científicas locais têm o potencial de tropicalizar a tecnologia, criando soluções adaptadas à infraestrutura, ao orçamento e à operação do Sistema Único de Saúde (SUS). Isso significa que um recém-nascido em uma cidade do interior pode ter o mesmo padrão de monitoramento que aquele atendido em um centro de elite global”, completa.

O projeto já acumula reconhecimento nacional. Em 2025, a Neuromate conquistou o 1º lugar no Desafio Nacional de Inovação, na categoria Ideação, com a temática ‘Saúde para Todos’, durante o Festival Curicaca, em Brasília, promovido pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Nanotecnologia e biodiversidade como vetor de inovação

Criada a partir de um grupo de pesquisa do Departamento de Farmácia da UFRN, a ISnano — Inovação e Soluções em Nanotecnologia — é mais um exemplo de empresa incubada no Metrópole Parque que vem se consolidando como deeptech. A startup surgiu da expertise desenvolvida ao longo de cerca de dez anos no Laboratório de Tecnologia e Biotecnologia Farmacêutica, a partir de demandas recorrentes de empresas e pesquisadores por soluções em nanotecnologia aplicada.

A ISnano atua no desenvolvimento de insumos nanotecnológicos de alta performance a partir de óleos e extratos da biodiversidade brasileira, voltados à aplicação nas indústrias cosmética, farmacêutica e veterinária.

Mantida pelos sócios Arnóbio Silva, Daniele Cavalcante, Ednaldo Gomes e Mariana Faria, a empresa tem como diferencial a capacidade de encapsular ativos naturais, como o blend de óleo de copaíba e o extrato de urucum nanoencapsulado. Esse processo não apenas protege as propriedades sensíveis desses óleos contra a oxidação, mas também potencializa sua eficácia e sua entrega em cosméticos para a pele e os cabelos.

A combinação de conhecimento científico aprofundado, demandas reais do mercado e políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo viabilizou a transição da pesquisa acadêmica para o modelo de negócio. Desde sua criação formal, em 2020, a empresa acumulou aproximadamente R$ 1,5 milhão em subvenções econômicas e programas de aceleração voltados à inovação, fundamentais para o amadurecimento da tecnologia e sua inserção no mercado.

Atualmente em fase operacional, a ISnano já conta com clientes ativos e compras recorrentes. Segundo Daniele Cavalcante, fundadora e diretora de Negócios e Marketing da empresa, os próximos passos envolvem a ampliação da atuação nacional, a expansão da infraestrutura de produção e a entrada no mercado internacional.

“Nosso objetivo imediato é otimizar a logística de produção para atender às demandas de forma mais ágil e ampliar nossa base de clientes. Em um horizonte de até dois anos, queremos consolidar a presença da ISnano em todo o país e estar com o processo de exportação em funcionamento, levando a nanotecnologia desenvolvida no RN para outros mercados”, afirma.