Projeto do IMD busca reduzir desigualdades no acesso a oportunidades em TI

Iniciativa insere alunos em projetos de P&D e oferece apoio acadêmico, psicológico e profissional
08-09-2026 / ASCOM
Inclusão
Yuri Borges

A percepção de que estudantes com diferentes trajetórias socioeconômicas nem sempre chegam em condições semelhantes à disputa por oportunidades acadêmicas e profissionais motivou a criação do Projeto #include, no Instituto Metrópole Digital (IMD/UFRN). A iniciativa insere alunos da UFRN da área de tecnologia em projetos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D), além de oferecer acompanhamento acadêmico, psicológico e profissional para fortalecer sua permanência no curso e preparação para o mercado de trabalho.

Criado há cerca de um ano, o #include nasceu de uma iniciativa do professor Gibeon Aquino, docente do Departamento de Informática e Matemática Aplicada (Dimap) e coordenador do Laboratório de Computação Móvel e Ubíqua do IMD (LabCOMU/IMD). A ideia surgiu a partir de uma inquietação do docente ao observar que, embora as políticas de inclusão tenham ampliado o acesso ao ensino superior, estudantes com trajetórias e condições socioeconômicas muito diferentes continuavam disputando oportunidades acadêmicas em situação de desigualdade.

Essa diferença se tornava especialmente evidente nos processos seletivos para projetos de P&D coordenados pelo próprio professor no âmbito do LabCOMU. Como as vagas exigem conhecimentos e habilidades técnicas para atender às demandas das instituições parceiras dos projetos, ele percebeu que os estudantes selecionados eram, com frequência, aqueles que haviam tido melhores condições de formação ao longo da vida. A partir daí, passou a buscar uma forma de criar uma oportunidade específica para alunos em situação de vulnerabilidade, sem abrir mão da preparação necessária para que, posteriormente, eles pudessem concorrer em igualdade de condições com os demais.

Impulso

“A ideia é dar esse impulso para que eles consigam ter melhores oportunidades”, explica Gibeon Aquino. Com esse propósito, o #include seleciona estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica e os insere diretamente em projetos de pesquisa e desenvolvimento, nos quais passam a atuar junto às demais equipes. Paralelamente, os participantes recebem acompanhamento acadêmico, psicológico e profissional, pensado para fortalecer sua trajetória na universidade e ampliar sua preparação para futuras oportunidades acadêmicas e profissionais.

Na dimensão acadêmica, os estudantes têm orientação sobre a trajetória no curso, com definição de prioridades, acompanhamento do desempenho nas disciplinas e indicação de estratégias para superar eventuais dificuldades. Já o apoio psicológico é voltado ao desenvolvimento de habilidades comportamentais, como comunicação, organização e autoestima, enquanto a mentoria profissional acompanha a atuação dos participantes nos projetos, identificando conhecimentos e competências que precisam ser desenvolvidos para o melhor desempenho das atividades.

Após cerca de um ano de funcionamento, o #include já beneficiou 12 estudantes, distribuídos em duas turmas de seis participantes, selecionadas semestralmente. Entre os integrantes da primeira turma, que conclui os 12 meses de programa em setembro, três já conseguiram novas oportunidades profissionais antes mesmo do encerramento desse período. Segundo Gibeon, os participantes também apresentaram melhora no rendimento acadêmico, com avanços no desempenho e na progressão ao longo do curso.

Trajetórias

Os resultados já alcançados pelo #include também aparecem nas trajetórias individuais de seus participantes. Quando ingressou no programa, Yara Kelly Lima da Silva já estava no sétimo período do Bacharelado em Tecnologia da Informação (BTI), mas ainda não havia tido nenhuma experiência profissional, nem conseguia se enxergar profissionalmente na área de TI.

“Eu descobri o #include num momento em que eu estava muito desiludida com a área, porque eu não me via atuando nela, achava que era muito complexo para mim”, conta a estudante. A entrada no programa proporcionou sua primeira experiência prática, em um projeto desenvolvido em parceria com a Apple, no qual passou a atuar na área de testes e qualidade de software.

Foi justamente essa experiência que mudou sua perspectiva profissional. Ao longo do #include, Yara passou por uma formação inicial, recebeu acompanhamento acadêmico e psicológico e teve contato cotidiano com atividades de um projeto de desenvolvimento, inclusive participando de reuniões em inglês e interagindo com profissionais de outros países.

“O #include me fez perceber que eu era capaz de fazer isso”, afirma. Depois de oito meses no programa, ela foi aprovada em uma nova seleção e passou a atuar no laboratório em uma função ligada à engenharia de testes, com melhores condições de bolsa. Hoje, afirma ter encontrado a área em que pretende seguir profissionalmente.

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Iara Kelly conta que a experiência no #include mudou sua perspectiva profissional.

Oportunidade

Experiência semelhante foi vivida por David Santos de Almeida Melo, que ingressou no #include quando estava no quarto período do BTI. Até então, ele já havia participado de bolsas na UFRN, mas ainda não tinha tido uma experiência diretamente ligada à área de TI. O estudante se sentia desanimado com a graduação, sobretudo por acreditar que não conseguia disputar oportunidades em condições semelhantes às de outros estudantes.

Já no programa, David passou a atuar no projeto Cortex, desenvolvido em parceria com a ASUS, exercendo atividades de Quality Assurance (QA), área responsável por testar funcionalidades e garantir a qualidade do software. Ele conta que a experiência permitiu compreender de forma mais concreta como funciona o desenvolvimento de um produto de software e ampliou sua preparação para o mercado de trabalho.

Depois de cerca de dez meses no #include, ele foi aprovado para atuar em outro projeto, fora do IMD, desta vez como desenvolvedor web. “Agora eu tenho total certeza que vou conseguir alcançar novos lugares”, diz o estudante, que atualmente está no sexto período e afirma conseguir se enxergar trabalhando na área durante e depois da graduação.

Ampliar

Histórias como a de David ajudam a mostrar o tipo de impacto que o professor Gibeon Aquino pretende ampliar dentro do IMD. Na segunda turma do #include, ele procurou outros docentes que coordenam projetos de Pesquisa & Desenvolvimento e apresentou a proposta de incorporar participantes do programa a essas iniciativas.

Até agora, dois professores aderiram e passaram a receber bolsistas do #include em seus próprios projetos. A intenção, segundo o docente, é ampliar essa rede: “A gente está disposto a fazer mais parcerias através da participação de outros professores que possam vir oferecer bolsas para esses estudantes”, explica.

Para Gibeon Aquino, a experiência com o programa mostra que iniciativas voltadas à redução das desigualdades também podem surgir a partir da atuação direta de professores e pesquisadores. “A gente tem uma tendência de ficar insatisfeito com algumas situações, com algumas desigualdades que observa, mas normalmente fica esperando alguém tomar uma iniciativa”, afirma. Segundo ele, a proposta do #include nasceu justamente da decisão de transformar essa inquietação em uma ação concreta, que agora busca alcançar cada vez mais estudantes e projetos dentro do IMD.

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Nova seleção

Enquanto consolida os resultados das duas primeiras turmas, o #include já prepara a entrada de novos participantes. O programa está com inscrições abertas para a seleção de sua terceira turma, com cinco vagas de bolsas remuneradas, destinadas a estudantes de graduação da UFRN matriculados em cursos da área de computação e classificados como prioritários para bolsas pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAE). As inscrições seguem até 13 de setembro, por meio de formulário on-line, e os selecionados receberão bolsa mensal de R$ 700 para uma carga horária de 25 horas semanais.